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Intercâmbio em Quiterianópolis aborda convivência com semiárido

Visitantes de vários estados conheceram o sistema de bioágua e a proposta de educação contextualizada
publicado: 07/06/2016 10h58 última modificação: 08/06/2016 17h07
Exibir carrossel de imagens Alessandra Fontes Sistema bioágua foi apresentado aos visitantes na comunidade Baixio, em Quiterianópolis

Sistema bioágua foi apresentado aos visitantes na comunidade Baixio, em Quiterianópolis

Estratégias inovadoras de convivência com o semiárido implantadas no município de Quiterianópolis (CE), a 409 quilômetros de Fortaleza, ganharam destaque no intercâmbio realizado no dia 3 de junho, que integrou a programação da XII Feira Regional da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária do Território Inhamuns/Crateús. O IFCE campus de Crateús foi um dos realizadores do evento juntamente com a Cáritas Diocesana de Crateús e diversos parceiros na região. A principal experiência apresentada foi a tecnologia social bioágua familiar, que visa ao reaproveitamento da água de uso doméstico para irrigação. Destacou-se também a proposta de educação contextualizada implantada na rede pública municipal de ensino.

O sistema bioágua consiste na filtragem da chamada “água cinza” (decorrente do uso doméstico na pia, na lavagem de roupa e no chuveiro) num processo biológico que se utiliza de minhocas para eliminar bactérias, dentre outros recursos alternativos para eliminar as impurezas. Posteriormente essa água é armazenada para uso na irrigação de plantações no entorno da casa, possibilitando manter a produção agrícola familiar nos períodos de maior estiagem.
 
Em Quiterianópolis já são 13 equipamentos implantados. “É um projeto inovador que ao chegar aqui passou por modificações que permitiram a sua replicabilidade, tornando a tecnologia mais acessível, sem comprometer a sua eficiência”, explica Lucieudo Gonsalles, coordenador executivo do Instituto Bem Viver, entidade responsável pelo projeto na região.
O intercâmbio contou com representantes de vários municípios cearenses e de outros estados, a exemplo de Minas Gerais, Bahia, Amazonas. Os visitantes conheceram a experiência da comunidade Baixio, onde o sistema bioáguas foi implantado desde dezembro do ano passado, destacando-se o trabalho realizado no quintal produtivo do grupo familiar que tem à frente os agricultores Antônio e Gilbene Araújo. 

Na comunidade esse mecanismo soma-se a equipamentos tradicionais de captação de água, como cacimbões e cisternas, viabilizando uma diversificada produtividade agrícola que inclui, entre outras, as culturas de banana, mamão, manga, cheiro verde, macaxeira, batata doce, laranja, acerola, pimentão, tomate.  “O quintal produtivo é a vida da nossa família, porque nós sobrevivemos daqui e a gente se dedica muito para ter esse alimento saudável”, considera Gilbene Araújo, que reside no local há 17 anos, onde também atua como professora da escola pública municipal.

A implantação do sistema Bioágua em Quiterianópolis conta com apoio do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PENUD), parceria com a Cáritas Diocesana, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Universidade Federal Rural do Semiárido. “É uma tecnologia que tem sido um aporte muito significativo na vida dos agricultores que são beneficiados com esse sistema e tem contribuído diretamente com um processo de educação contextualizada”, avalia Lucieudo. A iniciativa é gestada no Brasil pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), que atua com ações de promoção do desenvolvimento socioeconômico de comunidades tradicionais, agricultores familiares e assentados.

Educação contextualizada
A parceria com o poder público municipal constitui-se noutro suporte para o desenvolvimento da capacidade empreendedora dos produtores familiares em Quiterianópolis. Isso se dá diretamente por meio da aquisição da produção dessas famílias para ser utilizada na merenda escolar.

Outra vertente dessa parceria é a conscientização ambiental da sociedade local, por meio da proposta de educação contextualizada que tem sido aplicada na rede pública municipal de ensino. Nessa proposta, os alunos mantêm contato direto com as atividades no quintal produtivo e são envolvidos na abordagem de temáticas como alimentação saudável e aproveitamento da água, dentre outras. Eles realizam trabalhos escolares, tais como documentários em vídeo e painéis expositivos, nos quais abordam as alternativas possíveis de desenvolvimento em meio às adversidades climáticas da região.

De acordo com o professor Pedro Alves Neto, secretário de Educação do Município,  o projeto de educação contextualizada teve início com o trabalho de conscientização dos professores há cerca de três anos. Hoje todas as escolas estão envolvidas em atividades voltadas para essa proposta educacional.

Contudo, ele salienta que, para a proposta chegar à fase atual, uma série de desafios foram enfrentados. A começar pela formação dos professores, que era baseada num modelo diferente da educação contextualizada. Além disso, destaca os instrumentos didáticos que tradicionalmente são empregados nas salas de aula, a exemplo dos livros cujo conteúdo aborda temáticas distanciadas da realidade do semiárido. A superação desses desafios foi possível por meio de iniciativas como as atividades formativas ofertadas pela Cáritas Diocesana.

Trabalhos dos alunos
O contato direto dos participantes do intercâmbio com a experiência de educação contextualizada se deu na escola Detelvina Araújo Lima. No local, os visitantes puderam assistir a uma série de apresentações dos alunos focadas na temática ambiental, com ênfase em questões pertinentes à realidade local. Os trabalhos foram apresentados em variados suportes, tais como performances teatrais, paródias musicais, exibição de vídeo-documentários, painéis fotográficos, exposição artesanal com materiais reciclados, entre outros.

De acordo com a professora Rosália da Maia Costa (Bibia), que ministra a disciplina de língua portuguesa na Escola Detelvina Araújo Lima, o trabalho com educação contextualizada permite um olhar mais atento sobre o que acontece na escola, na comunidade e na própria cidade onde vivem, se dando de forma integrada, envolvendo gestores, professores e pais de alunos.   “Acreditamos que trabalhar de forma coletiva faz com que transformemos de verdade a nossa realidade, que nós tanto desejamos mudar”, salienta.

Elinaldo Rodrigues – Campus de Crateús